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ontem & hoje

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ontem & hoje
José Neto Pereira – 1956 – PH – Grupo de Estudos
Joaquim António Silva – 2013

A fotografia mais antiga faz-me regressar aos tempos em que, muito jovem, frequentava a instrução primária, talvez mesmo as classes iniciais, no ensino público dos idos anos cinquenta, onde se cruzavam crianças de todas as proveniências sociais.
É com admiração que os jovens das gerações actuais ouvem os relatos de que a maioria dessas crianças ia para as aulas descalça, mal alimentada e com trajes muito rudimentares.

Mas se isso era verdade, há uma recordação que me marcou sempre. Semanalmente, julgo que às segundas-feiras, havia de manhã, na aula, a distribuição das senhas para a sopa dos pobres.
Parece que estou a ver uns quadrados de papel ensebado e sujo, que as crianças mais carecidas guardavam nos bolsos, para acederem ao meio-dia a uma refeição muito carenciada em valores nutritivos.
Destes anos guardo ainda a memória de outro símbolo desses tempos. Tratava-se de uma chapa que alguns comerciantes pagavam mensalmente à polícia e que colocavam na porta para evitar serem incomodados pelos pedintes. Estes ficavam assim a saber que não podiam dirigir-se aqueles estabelecimentos.
Não me recordo se no final dos anos 60 ainda funcionava esta sopa dos pobres. Recordo antes que a seguir ao 25 de Abril de 1974, quando emergiram por todo o lado inúmeras iniciativas populares, foi criada uma associação de caldenses para a concretização de uma creche e berçário.
Entre várias pessoas envolvida nesse projecto, estavam a Teresa Caldeira e o Alberto Lemos.
O primeiro edifício que seria disponibilizado pela autarquia foi esta cantina que sofreu várias obras de beneficiação e que esteve a funcionar até há alguns anos como creche e jardim de infância.
A possibilidade que a Infancoop teve de criar novas e mais eficientes instalações levou ao seu abandono.
O edifício ficou algum tempo sem qualquer utilidade até que, quase meio século depois – e por ironia do destino – voltou à sua vocação inicial, agora não como “sopa dos pobres”, mas como “cantina social”, naquilo que a semântica do pós-25 de Abril e da participação na Europa dos ricos permite.
Provavelmente, caldenses que na trajectória da sua vida difícil se socorreram daquele espaço como instituição caritativa, devem maldizer porque meio século depois o mundo e a História voltou atrás e destapou a ilusão do desenvolvimento do último quarto do século passado.
Tentando ser absolutamente honesto e verdadeiro, nunca pensei que quase 30 anos depois da nossa adesão à CEE, hoje União Europeia, fosse necessário reabrir feridas que julgava definitivamente fechadas, ou seja, combater a fome e a miséria de forma tão brutal. Algo que vai deixar marcas indeléveis no futuro destes portugueses. JLAS

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