É nas primeiras edições de maio de 1974 que a Gazeta das Caldas nos traz as primeiras verdadeiras notícias livres sobre o 25 de abril, mas ainda escritas por pessoas envergonhadas com o novo regime, porque estiveram sempre distantes de opções democráticas. “Na nossa cidade realizou-se, na segunda-feira, manifestação de apoio à Junta de Salvação Nacional com a presença de enorme multidão”, conta a Gazeta, que, no entanto, remete mais explicações para o número seguinte.
O jornal traz, ainda assim, um artigo na primeira página intitulado de “Educação Política”, assinado por Rosa Bruno, figura controversa na cidade, que fora professor do ensino secundário, e que havia tomado posições pró e contra o sistema. Provavelmente a direção do jornal foi buscá-lo para dar um ar de renovação e de adesão.

No entanto repete um artigo de uma colaboração externa do Professor Plínio Corrêa de Oliveira, que coloca dúvidas sobre os processos revolucionários e que intitula o seu artigo “Para onde?”. Mas quem leu os seus artigos nas várias edições anteriores poucas dúvidas tem sobre o sentido que quer dar ao mesmo. Num momento como o que se vivia tem pouco nexo fazer um artigo que termina com histórias sobre o nudismo.
O 25 DE ABRIL NA GAZETA

ADESÃO POPULAR AO MOVIMENTO

O artigo termina por garantir aos leitores que “daremos notícia à parte, nesta e na subsequente edição, dos importantes acontecimentos locais”.
SPÍNOLA E AS CALDAS

Nesta semana há ainda um editorial, assinado pelo diretor, Carlos Saudade e Silva, que causou estupefação e indignação na cidade e especialmente entre os democratas locais, pela tão rápida mudança de sentido da opinião e da atuação da direção deste jornal, como vimos pelo teor das edições anteriores e especialmente depois do 16 de março.
Esse editorial notava que “o Povo e as Forças Armadas restituíram o Pais à normalidade das instituições políticas. Puseram termo a um regime de excepção que usava da autoridade para restringir as liberdades naturais em vez de as garantir e tornar efectivas. Tudo aconteceu por tal forma, clara, entusiástica e unânime, que é evidente ter recebido Portugal o que há muito esperava com a maior das ansiedades. Aceitar e bendizer, de braços abertos, o Movimento Militar e a sua lidima representante – que é a Junta de Salvação Pública – é um Imperativo nacional em que nos integramos com fé nos destinos democráticos da Pátria e animados do propósito sincero de cooperar na redenção da comunidade lusa ao calor das liberdades cívicas. Só espíritos fechados às realidades não viam que excepção não podia eternizar-se como regra e que esta – o auto-governo dum povo – é a que se encontra na normalidade de instituições erigidas por si mesmas – não impostas. Para mais foi patente a incapacidade do governo deposto para resolver os grandes problemas nacionais. Avulta que a Nação se mostra desde há anos-provida de educação cívica e dotada de capacidade para gerir os seus próprios destinos. Uma vez mais está provando isso. Este é o nosso acto de fé. Ao praticá-lo, lembramos as circunstâncias de pressão em que anteriormente se vivia e à qual não podíamos furtar-nos. Ao afirmar a nossa completa adesão à Proclamação da data histórica que foi a de 25 de Abril de 1974 e aos princípios aí enunciados pela Junta de Salvação Pública da presidência do General Spínola, estamos animados do ideal de introduzir no periódico caldense a estrutura adequada a torná-lo num arauto do Povo. Pretendemos que Gazeta das Caldas nascida democraticamente em 1 de Outubro de 1925 – fique aberta a todos, a dentro duma Imprensa livre, sem peias de censura ou exame prévio. Pomos como penhor e aval da genuinidade do nosso querer, a boa-fé, o desinteresse e a honestidade com que sempre procedemos”, prossegue o texto, que termina com a seguinte nota: “servimos sem nos servirmos”.
Visto hoje, não se entende como é possível pessoas que sempre foram coerentes com o regime anterior, mudarem tão rapidamente e darem sentido totalmente inverso para aquilo que sempre professaram e praticaram. Não admira que se estava a caminhar para uma mudança estrutural do próprio jornal o que aconteceria alguns dias depois com a demissão do diretor.
FALTA DE PAPEL

A GRELHA DA RTP
A Gazeta das Caldas na sua coluna da RTP mantinha a programação idêntica à de antes do 25 de Abril, não referindo as grandes transformações ocorridas que haviam anulado tudo o que se fazia e inseria antes. Como se fosse possível manter a mesma programação de adormecimento do antes da Revolução.
Para a semana trazemos mais artigos escritos a chumbo. Até lá!



