“Intranquilidade” é o título do primeiro artigo da Gazeta das Caldas que nos conta a história do 25 de abril. Com uma grande mancha negra e impresso em papel cor-de-rosa (era o que havia nesta época em que se sentia uma falta de papel gritante em todo o país), o artigo, publicado no dia 27 de abril, conta que “os acontecimentos de anteontem causaram a maior perturbação na vida nacional. O País, carece, acima de tudo, de poder assegurar aos Portugueses normalidade no trabalho de cada dia e tranquilidade nos lares e nas ruas”.
No jornal, que viria a sofrer grandes transformações em pouco tempo, sente-se ainda o medo e o alinhamento de quem mandava com o regime ditatorial. “Esperamos que das ocorrencias havidas nada resulte que prejudique a Pátria ou a diminua no respeito a que tem tem jus. Aos caldenses pedimos serenidade e civismo. Para alem de tudo o mais, a autarquia deve manter-se una pois ao bem de Caldas da Rainha, como ao da Nação, interessa sobremodo que nada nos divida”.
E mais nada nesta edição faz menção à Revolução dos Cravos. Ou seja, ainda não foi nesta edição da Gazeta que os leitores puderam ler notícias livres dos poderes, mas já se começava a contar a História.
A PRAÇA DA FRUTA

A MOBILIDADE


AO GRANDE CRIADOR DO CASO IMENSO

A NATALIDADE

“Atento aos problemas demográficos. o Centro de Saude, da superior direcção do dr. Mário de Azevedo e Castro, encontra-se capazmente esclarecido àcerca, da natalidade e da mortalidade na área do Concelho. Segundo dados pelo Centro recolhidos, o ano de 1973 acusou crescimento apreciável de nados-mortos e descida brusca na natalidade. Algo insólito aconteceu, pois, no ano findo. O aumento do número de crianças que não nasceram com vida permite se admitam carencias na assistencia pre-natal. Já a redução dos nascimentos não tem significado preciso e fácilmente determinavel.Visto que resultará porventura da emigração, da generalização do emprego de meios anti-concepcionais, das incertezas da evolução do custo de vida, do crescimento da corrupção e de um infinito número de outras causas. De qualquer maneira, importaria que as autoridades locais conjugassem os seus esforços pelo menos para tomarem consciencia dos problemas implicitos nas referencias anteriores, tanto mais que tudo indica não se fazer uso prático dos dados recolhidos pelo Centro de Saúde os quais, no entanto, não podem nem devem destinar-se apenas a gráficos que adornam paredes”, aponta o jornal.
VARIANTE À ESTRADA NACIONAL
A questão da variante à estrada nacional é, também, um tema de referência. “Está de novo na ordem do dia a construção duma variante à estrada nacional”, lia-se na Gazeta do dia 24. “Segundo informação recente da Junta Autónoma das Estradas, persiste o propósito de desviar do centro urbano o transito de viaturas. O desvio será feito através de variante à E. N. 8 que marginará a cidade pelo nascente. Por outro lado tinha a Câmara definido duas circulares destinadas ao descongestionamento da circulação rodoviária urbana. A Junta, que levou mais de dois anos a pronunciar-se àcerca da intensão camarária, acaba de emitir parecer segundo o qual não se justificam as duas circulares mas apenas uma e coincidente, em parte, com a mencionada variante.A análise dos métodos de trabalho das repartições estaduais que superintendem na matéria conduz à conclusão de que decorrerão decénios até que se firme uma decisão final do Ministério das Obras Públicas e outros decénios até que a decisão seja executada. Entretanto, dezenas de proprietários na zona onde virá a existir (?) a hipotética variante-circular estão impedidos de construir, dispor livremente do que lhes pertence, enquanto esperam que aquêle departamento do Estado tome resoluções. E a cidade vai, a nascente, estagnando”, acusa a Gazeta das Caldas, numa edição que tem ainda a particularidade de, por um lado, publicar o relatório de atividades da SECLA, na altura a principal unidade industrial das Caldas, e, por outro, anunciar também a instalação de uma nova indústria, de capitais suiços, que não se viria a concretizar. O jornal anunciava-a como certa e referia que ia empregar mais de uma centena de pessoas. “Começa a dar frutos a política de industrialização há meses iniciada pelo Municipio. Consiste a nova orientação camarária em dispor das largas centenas de metros quadrados de terrenos do seu domínio privado para vender a empresas industriais merecedoras de crédito e capazes de actividades fabris válidas. Correspondendo à iniciativa da Edilidade o Estado, através dos serviços competentes, está a canalizar para as Caldas os industriais estrangeiros que mostram interesse em investir e a Imprensa chama a atenção dos congéneres portugueses para as facilidades que aqui podem encontrar. Existe, em consequencia, uma dezena de perspectivas de investimentos de volume médio e pequeno no sector fabril. Vão desde a reduzida empresa de pré-esforçados, a querer dez mil metros de terreno, até ao grande consórcio luso-nipónico predisposto a dar emprego, em pouco tempo, a 3.000 pessoas. Tudo, porém, não tem passado até aqui do plano das prospecções por parte dos particulares e dos ingentes esforços dos «camarários para concretizações. Uma destas está, finalmente, à vista: Empresa de capitais, suiços vai implantar nas imediações do Campo edifícios que cobrirão 32.000 metros de terreno numa área de 7.8 hectares. O projecto está pronto. Assegurado está, tambem, o necessário licenciamento. Falta apenas firmar a compra à Câmara do terreno preciso que há-de ser vendido dentro de dias, segundo se espera”, garantia o jornal.
Para a semana trazemos mais artigos escritos a chumbo, nas primeiras edições livres da Gazeta das Caldas. Até lá!



