É num artigo sem título, envolvido por uma caixa negra, em grande destaque na primeira página da edição do dia 20 de março que encontramos as primeiras informações na Gazeta relativamente ao 16 de março de 1974. Não esquecendo que o jornal vivia ainda sob a censura da ditadura, conta a Gazeta que “a insurreição de opereta, que partiu do aquartelamento local e inverteu ao chegar a Lisboa, teve aqui a sua origem como a poderia ter tido noutra qualquer instalação militar do País. Ou então os «estrategas» da inversão preferiram a cidade por estar mais próxima da capital” e que “preocupam os caldenses o presente e o futuro do concelho ante o renome com que ficou, após a difusão do acontecimento e a infeliz escolha da urbe para ponto de partida da rebelião-farsa”.
Diz ainda que “as autoridades civis e as forças da Ordem cumpriram mui prontamente o dever de a contrariar e a isso não ficará alheio o Governo, por certo, ao avaliar do fácil coartar das veleidades” e, portanto, “os caldenses devem, pois, ficar tranquilos. Nem receiem perda de prestígio da unidade militar aqui fixada, nem temam haja sido maculado o honroso passado histórico do Regimento de Infantaria 5. Este não é o pequeno grupo dos sublevados. Sim os seus honrados comandos e os seus briosos majores, que houveram de ser manietados para ter lugar o golpe; sim os da escala comum da hierarquia que, perante ordens, só lhes cumpre obedecer. Nem uns nem outros foram os indisciplinadores e desordeiros. As Caldas e o seu regimento mantêm-se firmes. Nada buliu a honra e dignidade: nem desta «pequena pátria», de todos nós, nem da sua ilustríssima unidade militar”.
A Gazeta refere ainda que “as considerações que precedem não têm, basilarmente, conteúdo político. Situam-se no campo de regionalismo, bem caldense” e que “politicamente importa afirmar aos que, no ultramar e no estrangeiro, lerem estas linhas, sendo portugueses, que nada, absolutamente nada, aconteceu. Nas Caldas e seu termo, como pelo território do continente português, todos estamos em segurança, não há alterações da ordem pública”.
O regime procurava dar uma ideia de solidez, quando se aproximava a passos largos do seu fim. “Não suponham os nossos filhos e irmãos, que asseguram a perenidade de Portugal, que afirmam a presença lusíada além-mar e que sustentam os combates de supressão do terrorismo, haver algo mudado na rectaguarda. Esta é uma rocha em que podem sentir firme apoio”, conclui.
Na mesma página garantia-se que “pelo R.I.5 o Curso de Sargentos Milicianos está a funcionar” e que “após a interrupção normal do fim de semana e a de anteontem e ontem, reiniciou-se hoje a instrução no Curso de Sargentos Milicianos a funcionar na unidade militar aquartelada nesta cidade”.
É, portanto, possível perceber que era mais fácil obter informações fidedignas em jornais internacionais do que em qualquer nacional.
José Rebelo, jornalista e professor jubilado do ISCTE, em Lisboa, que trabalhava no departamento de pesquisa do conceituado jornal Le Monde (em França) em 1974, quando se deu o Golpe das Caldas e o 25 de Abril, disse em 2017, numa conferência promovida pela Gazeta das Caldas que “foi o 16 de Março que chamou a atenção da imprensa internacional para Portugal”.
O jornal francês, Le Monde e o jornal norte-americano, New York Times, são exemplos de órgãos de referência internacionais que noticiaram longamente e em primeira página os acontecimentos, bem como todas as televisões internacionais, dando explicações a que os portugueses em Portugal não tiveram direito.
COM CLAREZA E DECISÃO

O artigo, que procura justificar a política da ditadura, reconhece que “a vida encareceu”, mas aponta que a culpa é da inflação, que “esfuma muito os esforços do Governo no sentido de um melhor nível de vida para os Portugueses. Mas não é, de facto, a África nem a guerra que temos de sustentar que está na origem do mal. A causa apontou-a, sem rebuço, corajosamente, o Presidente do Conselho: está na Europa, na América e no Médio Oriente. Há que aguentar, até ao restabelecimento da normalidade, apertando o cinto se for preciso, dispensando os fins de semana e os cruzeiros se for necessário. Antes produzindo, trabalhando afincadamente e bem… e em paz… e em unidade. «Nem só de pão vive o homem», mas temos de pensar que, na hora que atravessamos, o pão chega e sobra, forçosamente, não por nossa culpa, mas pelo estado a que o Mundo chegou. E em todos os aspectos. Ao pedir nova reflexão ao País, através dos seus representantes na sua Câmara mais alta, e não carecia de o fazer para continuar a cumprir o mandato que a Nação lhe atribuiu, o Presidente do Conselho e os homens que o acompanham no Governo, lançaram um repto ao patriotismo nacional, ao portuguesismo de todos os Portugueses, incluindo os que se lhe opõem mas se não vendem, nem se deixam escorregar em fraquezas ou venalidades. Em África, não defendemos a nossa riqueza. Defendemos a nossa dignidade, a nossa honra e a vida e a fazenda de milhões de africanos, brancos negros. Defendemos e respeitamos a memória dos que lá morreram, dos que lá deixaram a sua carne e o seu sangue certos de que o fizeram no cumprimento de um dever sagrado. Mas há mais: lutando pela sua conservação e fomentando, sem precipitações, ao mesmo tempo, a sua autonomia participada, estamos a defender a Europa, a América e até mesmo a própria África. Duvidar desta verdade é estupidez, é cegueira perniciosa. O Mundo Ocidental não o quis compreender ainda, ou está tão vendido e tão rendido aos seus interesses oportunistas que nem vê que, hoje, pode dizer dos Portugueses, o que, há anos, Churchill disse dos próprios Ingleses: «Nunca tantos deveram tanto a tão poucos»”, lê-se.
CALDAS DEPOIS DO GOLPE

Uma particularidade que suscita a curiosidade é esta frase: “procede activamente a edilidade”. Sem dar mais pormenores, a Gazeta revela que a autarquia fazia aqui esforços junto do poder central para defender a sua terra. Resta saber o que é que isso significaria, em termos práticos, relativamente ao golpe.
FRENTE COMUM

Nas páginas da Gazeta sente-se a instabilidade que se vivia e percebe-se quais os principais motivos de fratura entre o regime ditatorial e a população e vê-se um ditadura em queda, mas que tenta agarrar-se ao poder e justificar as suas ações, que procura manipular opiniões e vedar o acesso a informação.
Irónico ainda iremos ver como o jornal reagirá daqui a algumas semanas, numa primeira edição ainda duvidando do êxito do 25 de Abril e depois dando a volta aderindo aos novos tempos, e fazendo “as mesmas pessoas” um discurso às avessas deste que vimos hoje.
Para a semana trazemos mais artigos a chumbo, quando estamos cada vez mais próximos da Revolução que repôs a Liberdade em Portugal. Até lá





