Embora publicado com a data de 16 de março de 1974, a edição da Gazeta das Caldas ainda não trazia, logicamente, nenhuma referência ao Golpe das Caldas que marcou este dia para a História. Essas virão na próxima edição…


Mas, até junho muito aconteceu. A Revolução de Abril retirou Portugal das amarras da ditadura e, sabemos hoje, as tais comemorações que estavam previstas para as Caldas não se chegaram a realizar.
COMPRAR E AÇAMBARCAR

Corre às lojas, arrebanha o que pode, compra num dia aquilo que costuma adquirir num mês. Quando vê a despensa (inutilmente) atulhada de mantimentos respira fundo, com a sensação do dever cumprido… Assim se armazenaram, nos primeiros tempos das medidas restritivas de carburantes, nas mais precárias condições e sujeitos a todos os perigos, bidões de gasolina e até se utilizaram banheiras para servirem de depósito do precioso combustível. Por idêntico sistema se transformaram agora arrecadações caseiras em sucursais de armazéns de secos e molhados. Como se processa o surto alarmista, capaz de desencadear a corrida aos estabelecimentos, na ânsia desvairada de um abastecimento anormal? Pois da maneira mais fácil. A criada do vizinho de baixo diz à “Simplesmente Maria” do terceiro direito que o óleo vai faltar. Jura até pelas alminhas. Quem a informou foi o marçano do merceeiro. Sim, aquele alto, dos olhos bonitos…
Daí a pouco, a notícia estala no cubículo da porteira. Esta põe o prédio ao corrente da advertência. Por seu turno, as diversas patroas, em conversa com as amigas, pelo telefone, transmitem a má nova… Cada uma delas, por sua vez, irradia a novidade. O curso do boato nunca mais se detém. Os comandos domésticos saem para a rua. E começam a operar… O que a princípio se apresentava como inconsciente atoarda ganha volume, galga distâncias, toma proporções de avalancha. E a bola de neve. Os lojistas, atónitos, veem-se a braços com um movimento para o qual não estavam preparados. As disponibilidades esgotam-se. Alertam os distribuidores. Estes recorrem às fábricas. O consumo anómalo desorganizou o circuito comercial. O produto começa a faltar realmente. Agora, sim, não se encontra em parte alguma. O comprador habitual e comedido arrepela-se. As dificuldades de normalizar o mercado agravam-se. É o círculo infernal que aprisiona as sociedades modernas. O fenómeno passa-se entre nós como em Londres, Bona ou Budapeste. As multidões são iguais por toda a parte. E nada satisfaz mais determinadas boas almas do que contemplar as prateleiras bem cheias, sobretudo, daqueles géneros que escasseiam noutras casas. O pior é o resto… Assim como a gasolina se evapora, açúcar fermenta, o azeite rança… Esses são os riscos dum egoísta desenfreado, dum mal-entendido espírito de previdência. As «açambarcadoras» no feminino, porque os principais agentes da escassez, em muitos casos, são precisamente certas donas de casa, as açambarcadoras, dizíamos, vêem a própria imagem, no espelho do seu comportamento com auréola de quem venceu uma batalha e superou os acontecimentos. Não generalizemos, porém. Mas as que estão em causa são suficientemente numerosas de perturbação considerável. Se a súbita intensificação da procura dum produto traz sempre transtornos de maior ou menor vulto, no momento presente as consequências são mais graves. A crise de carburantes, com efeito, confundiu os transportes e afectou o aproveitamento de matérias-primas. A um consumo inesperado e excessivo o mercado nem sempre está em condições de corresponder, por circunstâncias alheias, mas ligadas ao clima de penúria universal, tão característico dos nossos dias. Seria insensato, da nossa parte, como dissemos, atribuir todas as faltas às monopolistas, loiras e morenas, dos supermercados, isto é, às donas de casa e às suas tropas de choque. Há outros factores, sem dúvida. Uns lógicos. Outros anormais. Todos com muito peso. Mas, se não assacamos todas as culpas a Suas Excelências as Consumidoras, não as absolvemos das que lhes cabem, embora ressalvando as intenções…», diz o artigo que é um interessante testemunho da sociedade de então e do contexto em que vivia o país.
A HISTÓRIA DO BACALHAU

É que “os comerciantes locais se a esse alto preço puseram à venda o bacalhau foi porque legalmente o podiam fazer. Na verdade, o produto, consoante a qualidade, o peso e o tamanho, ou é comerciável em regime «livre ou está sujeito a tabela. O submetido a tabela não pode ser vendido a preço superior ao limite máximo acima referido. O outro, esse pode ser vendido a qualquer preço desde que o armazenista e o retalhista não aufiram lucro superior, respectivamente, a 6 e a 10%. Assim nos desdizemos, reparando o erro cometido e pedindo humildemente desculpa por havermos induzido em erro os leitores e termos acusado, implicitamente, de especuladores os comerciantes da especialidade. Com a mesma veemência e clareza com que confessamos o grave pecado praticado, protestamos indignadamente contra a medida que consente um aumento sem igual do preço do bacaIhau. Não sabemos até onde as autoridades, que superintendem no comércio dos géneros alimentícios, querem que chegue a incapacidade de compra dos consumidores de produtos que formam as ementas corriqueiras na alimentação cotidiana. Mas porque a permissão da venda por mais do dobro do preço anterior do bacalhau tomou agora a feição de simples pormenor no desconcerto geral não vale a pena abordá-lo em si. Preferimos tornar pública na parte essencial, a portaria n.º 87 de 6 de Fevereiro passado, que determina: «Os tipos comerciais do bacalhau salgado seco são os seguintes: a) especial – peixes com mais de 4 Kgrs.; b) grande – peixes com mais de 2 a 4 Kgrs.; c) crescido – peixes com mais de 1 a 2 Kgrs.; d) corrente – peixes com mais de 0.5 a 1 Kgrs.; e) miúdo – peixes até 0,5 Kgrs.; f) sortido-peixes partidos ou amputados, com ligeiros defeitos de preparação ou conservação, bem como espécies afins com menos de 0,5 Kgrs.;» Ficam sujeitos ao regime de homologação prévia os tipos comerciais de bacalhau corrente, miúdo e sortido».
O SANEAMENTO E OS TRANSPORTES COLETIVOS

AS ESTRADAS

LUZ NO CHÃO DA PARADA

O ACORDEÃO
Também nesta edição dá-se conta de que “principiou a preparação do Campeonato Mundial de Acordeão”, estando “constituída a comissão organizadora da competição mundial de acordeão, que decorrerá nas Caldas em Setembro”. “A comissão teve há dias a sua primeira reunião sob a presidência de Luís Filipe de Carvalho Alves Correia, vereador e presidente da Comissão Municipal de Turismo”.
UNIFICAÇÃO DAS BANDAS DE MÚSICA?

Hoje, 50 anos depois, felizmente, olhamos para o panorama das bandas musicais no concelho e vemos… vitalidade e diversidade!
CURIOSIDADES

A PUBLICIDADE DE HÁ 50 ANOS
Trazemos alguns anúncios curiosos: “a Vossa hérnia deixará de vos preocupar!… Myoplastic Kleber é um método moderno incomparável. Sem mola e sem pelota, este verdadeiro músculo de socorro, reforça a parede abdominal e mantém os órgãos no seu lugar. “Como se fosse com as mãos”. Bem-estar e vigor, são obtidos com o seu uso. Podereis retomar a vossa habitual actividade. Milhares de herniados usam Myoplastic em 10 países da Europa (da Finlândia a Portugal). As aplicações são feitas pelas Agências do Institut Herniarire de Lyon (França). Podereis efectuar um ensaio, completamente gratuito em qualquer das Farmácias abaixo indicadas: CALDAS DA RAINHA – Farmácia Freitas – Dia 13 de Março (Só de tarde); ABRANTES – Farmácia Mota Ferraz Dia 14 de Março (Só de manha); TOMAR – Farmácia da Misericórdia, Rua da Infantaria 15 – Dia 14 de Março (Só de tarde). Durante o intervalo das visitas do Aplicador, as Farmácias Depositárias poderão atender todos aqueles que se lhes dirijam para adquirir cintas”.
Outro: “Do Míldio safei-me eu… Venham as boas colheitas. Cuprosan. O melhor amigo dos viticultores, acaba de vez com as dores de cabeça que o míldio Ihe traz. Eficaz como o sulfato de cobre mas mais fácil de aplicar. Cuprosan é vendido em Portugal pela: AGROP. Cuprosan Super Azul – o mais completo organo-cúprico”.
Para a semana trazemos mais artigos escritos a chumbo. Até lá!




