Sábado (17 de janeiro) foi dia de romaria. Milhares voltaram a subir os 155 degraus e acedem à ermida do Santo Antão, uns por devoção e todos pelo convívio. A festa, que conta com cerca de 600 anos, teve como momento alto a apresentação pública do projeto de intervenção e restauro da ermida
Construída no século XIV como pagamento de uma promessa de D. Antão Vaz de Moniz, cavaleiro da Ala dos Namorados, pela vitória na Batalha de Aljubarrota, a Ermida de Santo Antão tem assumido um papel relevante na história local, associada a uma das festividades mais originais da região. A cada 17 de janeiro cumpre-se a tradição, que vem ganhando fulgor, e este ano não foi excepção. O sábado foi de fortes aguaceiros, mas a chuva (e frio) não demoveu milhares de locais e forasteiros que subiram o monte situado a noroeste da vila de Óbidos, em mais uma romaria. A tradição secular está associada à proteção dos animais, em que os romeiros neste dia pagavam a promessa feita ao santo numa hora de aflição. Mas atualmente é o convívio em volta da fogueira, onde se assa o chouriço, a carne e aquece o vinho, e animado por música popular, que move os convivas durante todo o dia.
Na casa das esmolas continuam à venda as imagens dos animais em cera e as velas, que são colocadas a arder na ermida em agradecimento ao santo, bem como a fita rosa, benzida, destinada a amarrar à cabeça dos animais para os proteger “contra qualquer mal”. Agora, sobretudo para animais de estimação, explica Raul Penha, da Comissão de Festas do Santo Antão, que este ano esgotou o stock de cães e gatos em cera e já teve de fazer uma encomenda maior para o próximo ano.
Raul Penha ainda se lembra do tempo em que as promessas feitas ao santo pela saúde dos animais eram pagas em géneros, que depois eram leiloados no dia da festa. Agora apenas um romeiro continua a pagar a sua promessa, anualmente, com chouriço feito em casa. “É o único e há sempre a gente está à espera que ele pague a promessa [na Casa das Esmolas] para comprar o chouriço a seguir”, concretiza. Anualmente recebe também, por parte de romeiros da Lourinhã, um ramo de flores destinado a colocar junto à imagem de Santa Cecília, padroeira da música, que se encontra no altar da capela de Santo Antão.
Há 35 anos na comissão e romeiro há mais de meio século, Raul Penha nota algumas diferenças na romaria, mas realça que “o que é genuíno mantém-se quase tudo igual”. Uma das alterações prende-se com a ocupação do terreiro junto à ermida, que há umas décadas era povoado por pequenas fogueirinhas, “e cada família convivia à volta da sua, enquanto que agora são feitas grandes fogueiras que são usadas por muitas pessoas, o que promove mais o convívio”.
Valorização do património
Este ano, o dia de romaria foi aproveitado para a apresentação do projeto de reabilitação da Ermida, que tem por objetivo principal “prolongá-la no tempo e que possa ser um exemplar para gerações futuras”, explicou a arquiteta Cláudia Castro. Esta técnica integra uma equipa multidisciplinar, que compreende também engenheiros, arqueólogos e técnicos de conservação e restauro, empenhados em valorizar aquele património e garantir que não se irá deteriorar mais do que está atualmente.
“Todas as ações vão incidir sobre a reabilitação de paredes, coberturas, pavimentos e, sobretudo, na valorização do património integrado no espaço litúrgico que é tudo o que sobrou dos azulejos, do resto das paredes, altares e as pinturas dos retábulos”, salientou a arquiteta. Haverá uma equipa de conservação de restauro a trabalhar diretamente no local, “garantindo que há um ambiente controlado e é a forma mais correta de intervir no património”, concretizou.
A intervenção contempla ainda a criação de instalações sanitárias num dos anexos, onde atualmente está a casa das velas, que servirão de apoio à festa anual, mas também a outras atividades comunitárias que possam existir ao longo de todo o ano. A casa do telheiro será dotada de água e esgotos, para permitir instalar uma cozinha de apoio e, a par disso, serão melhorados os anexos existentes à volta da ermida, com pavimento e condições que lhes possam albergar grupos.
Em outubro do ano passado, a paróquia e a autarquia de Óbidos tornaram público o roubo de parte dos azulejos setecentistas que revestem as paredes do templo. De acordo com Cláudia Castro, foi entendimento técnico não os reconstituir, pelo menos para já. “Vamos assumir que eles foram roubados, tratar as superfícies das paredes, mas não vamos reconstituir, até porque é muito difícil encontrar artistas que o consigam fazer de uma forma estética e harmoniosa com os restantes azulejos”, explicou. A urgência na reabilitação do edifício (que já estava prevista antes do roubo dos azulejos) levou à criação de uma comissão de angariação de fundos para a Capela de Santo Antão. Embora ainda não seja possível estimar o valor global da intervenção, já foi criado um crowdfunding (https://www.gofundme.com/f/300-000) e, de acordo com o pároco de Óbidos, Mário Silva, será também dinamizado um programa cultural, para angariação de fundos para esta intervenção.
A Câmara de Óbidos também irá apoiar, garantindo a restante verba para que a obra se possa concretizar. “Um evento como o Santo Antão e a peregrinação que aqui se faz ao santo protetor dos animais, merecem esta atenção”, disse o presidente da autarquia, Filipe Daniel, destacando a necessidade de preservação do património, mas também daquela “tradição e identidade”.
Além desta ermida, a Câmara de Óbidos pretende requalificar o património religioso do concelho, contando apresentar em breve a proposta na Câmara e depois na Assembleia Municipal. “Tem havido um trabalho imenso nas várias comissões de igrejas do concelho para que consigamos fazer essa recuperação porque basta umas telhas ou um telhado danificado para deteriorar um altar com todo o valor que possui”, referiu Filipe Daniel.
Mais do que a reabilitação do património no interior dos templos (estruturas retabulares ou de azulejaria), nesta primeira fase o objetivo passa por “estabilizar os imóveis e resolver problemas de cobertura, de infiltrações e permitir que nada ponha em causa o património que está no seu interior”, concretiza o vereador Bruno Silva. A ideia passa por fazer as obras, nos próximos quatro anos, de forma faseada. “Identificar intervenções de carácter urgente, que põem em causa o património dos imóveis e definir essas intervenções como prioritárias e ir depois fazendo as restantes”, explica o vereador, fazendo notar que estão também a procurar “as melhores definições jurídicas” para “preservar aquele que é um património de todos apesar de ser privado”.
O exemplo de Montijo
Uma turma de 12º ano da Escola Secundária Jorge Peixinho, no Montijo, angariou mais de 260 euros para apoiar a reabilitação da Ermida de Santo Antão. A apresentação na aula do texto do historiador Vítor Serrão sobre o roubo dos azulejos, por parte da professora, motivou os jovens a criarem trabalhos artísticos e a fazer uma venda solidária. “Uns fizeram esculturas, outros autocolantes e outros ainda desenhos, que foram comprados pelos professores, colegas e funcionários”, especificou Nadja Camassa, destacando que se identificaram como problema, embora não conhecessem o local. “Alguns de nós já conhecíamos Óbidos, mas não conhecíamos esta romaria. Está a ser muito bom, estamos a ser super bem acolhidos”, acrescentou Mariana Santos, uma das 17 alunas da turma (de 28), que veio à festividade no sábado e entregou o donativo à comissão de angariação de fundos, juntamente com um postal que contem fotos da ermida, dos projetos que foram vendidos e uma mensagem com o motivo.





