
Miguel-Manso assina «A falha do Tejo» na página 34: «abriram um centímetro cada / mil anos estas portas / o rio mudou sete vezes de plano, escavou / a profundeza onde já não cai / há milénios / de antiguidade ainda mais absurda / a rocha esbanjou cinco mil metros de tamanho, erodiu / tornou este coração fendido e pardo / onde nidificam os grifos.»
Carlos Alberto Machado mistura no seu poema a paisagem e o povoamento: «a voz erguida do poeta retorna clareada / e as palavras tangem a superfície das águas / do rio que deixou de saber como chegar ao seu destino / rio interrompido / interrompida vida dos mortos que a vida tem / falhas que não respondem à ferida que as faz / às portas de ródão os grifos / vigilantes.»
Por fim Hélia Correia celebra num poema («Mãe Cargaleiro») toda a maternidade a partir da imagem da mãe do pintor: «Não ama / nem os festejos / nem as invernias, / ama somente o filho e tudo aquilo / que lhe pode ensinar, / isto é lançar a praga / e a tesoura / e uma espécie de método que leva / a que tudo se ajuste e se detenha / na vertical.»
Ruy Belo também podia ter o seu nome na capa deste livro porque um seu poema está na página 17 e porque passava férias de infância na Aldeia da Mata, do outro lado do Tejo. A geografia é mais importante do que a História – já dizia Vitorino Nemésio.
(Editora: Companhia das Ilhas, Capa: Orlando José Martins Ruivo)