Joana Beato Ribeiro
Arquivista
Memória e conhecimento, arquivos e História, historiadores e arquivistas. Palavras, conceitos e profissões que foram o mote para uma importante Tertúlia PH no Palco CCC, com os Professores António Camões Gouveia, Maria de Lurdes Rosa da Universidade Nova de Lisboa e Paulo Batista, diretor do Arquivo Nacional Torre do Tombo.
“A cidade vista e revista” não obriga a tomar as Caldas como ponto de partida, mas foi pertinente que se tenha pensado moderadamente nesta cidade. Como indicou Camões Gouveia (falando de associações), é importante que, ao pensar o património, não se veja somente uma cidade, mas que se trabalhe para a cidade com os olhos postos no mundo. Especialista em História de Portugal moderno, Camões Gouveia mostrou a sua visão prática sobre mediação e fruição do património, enquadrado num tripartidarismo que introduzi no título desta crónica. Nele, as pessoas destacam-se como construtoras do património, pelo que não é possível pensar História e memória sem elas.
Maria de Lurdes Rosa reuniu na sua intervenção o saber de medievalista, a Arquivística Histórica e a divulgação científica do recente projeto VINCULUM. Neste último caso, os resultados evidenciaram de forma inesperada a presença de vínculos nas cidades, acrescentando uma certa ruralidade a lugares em que, à partida, o “ar tornava as pessoas mais livres”. Pela presença transversal dos arquivos familiares na sua investigação, identificou a necessidade de confrontar as memórias com “perceções mais científicas da realidade”.
Paulo Batista, arquivista experiente e especialista em arquivos de Arquitetura, relacionou memória urbana e conhecimento, a partir do arquivo, com a cidade – “documento vivo”. Pensando no Arquivo Municipal de Lisboa, destacou a frequente consulta de processos de obras particulares, que mantêm valor probatório. Quando procurado pelos cidadãos, o arquivo vê o seu papel renovado, pelo que foi apontada a tendência atual para que este serviço se associe mais à modernização administrativa do que à cultura. Foram identificados os muitos benefícios (e alguns malefícios) da Internet no acesso aos arquivos, definidos meios de divulgação destes serviços e caracterizado o panorama arquivístico nacional.
Urge uma nota final sobre arquivos, como é hábito nestas crónicas. António Camões Gouveia deixou claro que, na sua conceção atual, este existe para lá das paredes, sendo necessário acabar com a visão sacralizada que lhe está associada. Os documentos, por sua vez, ao serem para nós património, entram no nosso dia-a-dia e aumentam a “exigência ética” de dar acesso à informação que veiculam, como indicou Paulo Batista. Neste contexto, Maria de Lurdes Rosa, relançou o arquivo enquanto instituição de memória social, integrando documentos noutros suportes e diferentes produtores informacionais.
Concluiu-se que História e memória não são sempre conhecimento. Todos implicam construção, mediação e programação. Todos implicam uma missão bem definida, em que historiadores e arquivistas têm um papel a desempenhar.