Início Opinião Este Consumo Que Nos Consome – O culto do amadorismo: (talvez) o lado mais sombrio da internet

Este Consumo Que Nos Consome – O culto do amadorismo: (talvez) o lado mais sombrio da internet

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Um conhecido empreendedor de Silicon Valley, fundador do Audiocafe.com, um popular website, veio revelar-se como um dos mais destacados denunciadores dos perigos sociais, económicos e éticos da Internet. O seu libelo“O Culto do Amadorismo” é incontestavelmente provocador e bem argumentado, a ponto de não poder ser ignorado. Falando por mim, recomendaria que não fosse. É provável que o leitor não esteja indiferente quanto ao debate indispensável para a revolução digital. Então, leia “O Culto do Amadorismo, como a Internet actual está a matar a nossa cultura e a assaltar a economia”, por Andrew Keen, Guerra e Paz editoras, 2008.

Compreende-se que o culto do amadorismo esteja a ser violentamente atacado por bloggers, youtubers ou wikipedianos, entre outros grupos, ofendidos por ver a sua fé questionada num mundo onde a cultura está a perder em vez de auferir de todos os benefícios da revolução digital: a simulação do gratuito está a fazer definhar jornais, revistas, publicações especializadas, a indústria musical e cinematográfica, substituídos por conteúdos amadores. Andrew Keen poderá ser acusado de elitista ao denunciar os perigos da celebração do amadorismo. Mas ele fundamenta os seus argumentos: a cultura online do copy-paste não só desfigura a propriedade intelectual como está a provocar um terramoto económico, social e cultural: a destruição dos direitos de autor, a espoliação de artistas, autores, jornalistas e todos aqueles que dependem do trabalho criativo. Em troca de quê? Em vez de promovermos o jornalismo responsável acreditamos em todas as pessoas que podem publicar num blogue, disponibilizar um vídeo no Youtube ou mudar um artigo da Wikipedia. Estão esbatidas as fronteiras entre o verdadeiro e o imaginário, ganha cada vez mais espaço uma cultura que enaltece o plágio e a pirataria.
Afinal, em que mundo vivemos? Se continuarmos a este ritmo, escreve Keen, haverá mais de 500.000.000 de blogues em 2010, aumentando a possibilidade de termos uma opinião pública cada vez mais confusa, sem saber muito bem o que é sério e puro delírio na política, comércio, arte e cultura. Desde o advento da Wikipedia, já mais de 1.500 colaboradores criaram quase 3.000.000 de verbetes em mais de uma centena de línguas diferentes, a Wikipedia tornou-se no terceiro sítio mais visitado para saber informações e acontecimentos culturais. Ora, são inúmeros os casos de manipulação e condicionamento de opinião pública na Wikipedia. Com este triunfo do amadorismo, assistimos impassíveis ao descrédito dos jornalistas e vamos procurar informações em sítios que não primam pela credibilidade. Mas não será essa ofensiva do amadorismo um triunfo da democratização? Não é, está a desvalorizar a verdade, a qualidade do discurso público civil, a encorajar o plágio e a atrofiar a criatividade. Vivemos em remix, sem perceber que a banalização do empréstimo e do copy-paste degrada a independência intelectual, tornando difícil determinar a diferença entre leitor e escritor, artista e manipulador. Mas o amadorismo estende os seus perigos para além da informação, ameaça o mundo do design, da moda e da publicidade, leva os colossos financeiros e económicos a servirem-se do digital para nos querer seduzir ,disfarçados de informação rigorosa e séria. A indústria discográfica está seriamente afectada, está o cinema, estão as empresas de comunicação. Andrew Keen avança com algumas soluções e dá exemplos de revolução digital que preserva a nossa cultura e valores. Fala na Citizendium como um projecto wiki que combina a participação pública com a orientação discreta de especialistas, há que voltar a confiar nos nossos especialistas, caso dos jornais e revistas tradicionais que estão a reagir aos desafios, combinando conteúdos da nova multimédia e tradicionais sem comprometerem padrões editoriais nem de qualidade. Entre exemplos conhecidos, ele refere o jornal britânico The Guardian que tem uma versão em linha« Guardian Unlimited »que se pode gabar de ter mais leitores em linha do que jornais como o Los Angeles Times. Embora o« Guardian Unlimited »seja grátis, tem conseguido alcançar algum sucesso económico por meio do equilíbrio efectivo de custos e vendas de publicidade em linha.
Como é evidente, não é só esta ilusão de que a tecnologia por si só poderá gerar uma democracia melhor que deve ser o fulcro das discussões que possam permitir superar a onda de arbitrariedade e narcisismo que atravessa a Internet. O próprio mundo dos negócios, o discurso político e os construtores de opinião deviam ter um papel esclarecedor sobre o triunfo do gratuito recebido com tanto entusiasmo no mercado de consumo. Criou-se a ilusão de que com as coisas gratuitas os consumidores escapam ao mercado. É uma bênção(!) fazermos cópia de tudo ou comprarmos filmes piratas a um euro! É que nisto que o gratuito se tornou um filão comercial que envolve jornais e revistas e promove um marketing que promete o gratuito. Perdeu-se a dignidade de pagar aos criativos, noção indispensável que prepara os valores do prémio pelo talento ou mérito. Este conceito do gratuito é uma das rampas de lançamento do próprio amadorismo. Ler o livro de Andrew Keen é ter coragem de olhar para dentro da Internet e querer melhorar as coisas. É bem provável que haja exageros na sua denúncia, o importante é termos o espírito aberto para conhecer os limites, os perigos e os desafios de uma comunicação social que, como muitos crêem, não pode estar exclusivamente nas mãos dos utilizadores.
Beja Santos

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