
Vejamos o primeiro: «No ventre da tua mãe começaste a amar as águas. / E soubeste como se abrem os diques da pele / para jorrarem em litorais que explodem / as marés assediadas pela lua. / Depois quiseste ser cais e barco, / âncora e vela, abrigo e naufrágio. / Tens agora um mar aberto a inundar-te o olhar. / Para sempre.»
Reparemos no segundo: «És um navegante solitário. / Cartografas com precisão / todos os vórtices. / E deixas que uma luz coada / entre no convés, pela escotilha, / para esqueceres como são brutais / e longas as cordas da noite / quando recolhes os despojos / dos naufrágios mais secretos.»
Entre o «sangue pisado» da biografia e o «estilo» da escrita, Graça Pires prova saber, como Camilo Castelo Branco, que «A poesia não tem presente: ou é esperança ou saudade».
(Editora: Poética Edições)