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Crónicas de Bem Fazer e de Mal Dizer – CX

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Crónicas de Bem Fazer e de Mal Dizer  – CX
Isabel Castanheira

TEMPOS FELIZES

José Marques Vidal, conhecido pela sua carreira no Ministério Público e na Judicatura, é o autor que hoje vos apresento e cujo livro intitula-se “O Príncipe Perfeito”, publicado em Julho de 2016. Todos sabemos que D. João II é o marido da Rainha D. Leonor de Lencastre, a rainha da nossa cidade.
Escolhemos o texto que descreve as razões do real enlace:
“Cresceu D. João mimado pela mãe, sem ter noção da perda irreparável da sua partida para o Além, em Dezembro de 1455, tinha ele nove meses, pois sua tia Filipa, que o rei admitiria na corte por rogo da rainha, se apressara a substituir a irmã no amor maternal, facto que o príncipe nunca esqueceu ao longo da sua vida, dedicando-lhe amor quase filial.
[…] Chegava o tempo aprazado para o casamento com Leonor, feita mulher aos doze anos pelo surgimento da primeira regra menstrual, a pode emprenhar e criar filhos, que as princesas e as rainhas se

destinavam a perpetuar no trono uma estirpe, e D. João era um varão robusto e ardente, capaz de meter mãos à obra com afinco, para honra e satisfação do pai e do tio Fernando, que ansiavam pela realização do pacto acordado contra ventos e marés. Porque, se D. Afonso V rejeitara de outros reinos europeus várias propostas matrimoniais, também o infante D. Fernando lhe seguira os passos em relação às testas coroadas que lhe cobiçavam a beleza e o dote da filha.
Com 15 anos de idade e a beirar os 16, de instrução completada em grego, latim, filosofia, matemática, astronomia, astrologia, ciências náuticas e marciais; aperfeiçoado nos jogos de apuramento físico da fidalguia, caça, justas, torneios e lide de toiros; atento à observação e análise de tudo quanto se passava à sua roda, montra das virtudes e defeitos dos cortesãos e da ambição dos homens; e, principalmente, prevenido por seu pai das dificuldades da governação do reino e adestrado para as ultrapassar, o príncipe encontrava-se preparado para tomar as rédeas do poder, mau grado a sua juventude.
Já Leonor, ainda núbil, embora tivesse conhecimento de estar prometida ao primo e destinada a ser princesa de Portugal, não tomara consciência do que isso representava. Era ainda uma criança quando subiu ao altar com o príncipe ao seu lado, um rapaz garboso de figura, mas de semblante sisudo e dotado de uns olhos negros e indecifráveis que, no íntimo, por vezes a atemorizavam. Os últimos retoques para a celebração deram-nos os irmãos, Afonso e Fernando, em Julho de 1470, quando o primeiro estanciava no Paço de Palmela e o segundo se albergava em Setúbal.
– Casamo-los no início de ano que vem, na estação do frio – galhofava o rei – que o ajuntamento de macho e fêmea requer a quentura da cama, e o calor do Verão não é propício à conjugação carnal.
– Seja quando quiserdes, que sois senhor do reino, e todos vos devemos obediência. Mas, lembrai-vos que Leonor ainda é uma criança muito temerosa a Deus, embora preparada para o destino que lhe traçámos – obtemperou o infante, algo melindrado pela linguagem chocarreira do irmão.”
E por aqui ficamos, porque de modo algum nos queremos intrometer na intimidade dos príncipes…

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