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Coisas das Caldas – II. O das Caldas

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Coisas das Caldas – II. O das Caldas
Carlos Querido

Em recente visita à nossa cidade, uma figura pública ligada à cultura teceu o seguinte comentário sobre a sua chegada ao alojamento hoteleiro onde pernoitou: «Não imagina a minha surpresa. Comecei por ver um pirilau gigante plantado no jardim adjacente à receção. Depois, lá dentro e em redor, havia-os de todas as cores, dimensões e feitios. Pensei comigo: estes tipos são loucos! Um hóspede mal dá por isso e está rodeado de pirilaus! Só mais tarde me recordei de que este é um dos símbolos das Caldas». Em suma, para o ilustre visitante, a legitimação estética da exposição das peças fálicas está na tradição da cidade. Noutro local seria de puro mau gosto. Nas Caldas trata-se de «divulgação cultural».

Não haverá caldense que não tenha sido confrontado com insinuações brejeiras quando identifica o lugar de origem, atribuindo-se ao artigo definido singular masculino «o» um significado que prescinde do substantivo (o da Caldas é o dito, sem necessidade de o nomear).
Nem sempre o caldense manteve uma relação gratificante (sem embaraços) com este «símbolo» da sua cidade, malgrado um dos seus mais ilustres ter defendido com ironia que à mão gigantesca colocada à entrada de Óbidos deveria corresponder um falo de iguais proporções à entrada das Caldas, apesar de não se ver a relação entre a mão e o dito.
Recuando uns anos, aos jogos do Caldas na Mata, os caldenses recordam-se das ruidosas excursões de autocarro que acompanhavam a equipa visitante, e que, findo o jogo, independentemente do resultado, rumavam às lojas de cerâmica junto ao parque para adquirir exemplares de «louça da malandrice», esgotando os stocks clandestinos, entre sorrisos alarves e anedotas picantes.
A falta que nos fez a envolvente religiosa que sacraliza os símbolos, como acontece em Amarante, onde a bênção da fertilidade do santo padroeiro «casamenteiro das velhas», permite a qualquer pasteleiro o anúncio sem embaraços, dos famosos «colhõezinhos de S. Gonçalo».
Mudam-se os tempos, e nos ateliês da nova geração de talentosos ceramistas faz-se arte com o dito, em variações sobre o tema que não se confundem com qualquer eufemismo estético. «O das Caldas», na inesgotável vertente artística, tornou-se socialmente aceitável, alcançando um estatuto de respeitabilidade.
Os caldenses agradecem.
Não era sem tempo.

Carlos Querido

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