Início Opinião CAIXA NEGRA. REFLEXÃO SOBRE A VIDA E A MORTE DA CULTURA NA CIDADE

CAIXA NEGRA. REFLEXÃO SOBRE A VIDA E A MORTE DA CULTURA NA CIDADE

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CAIXA NEGRA. REFLEXÃO SOBRE A VIDA E A MORTE DA CULTURA NA CIDADE

Bruno Prates – o democratizador da cultura

Gazeta das Caldas
Bruno Prates

Começava a entrevista com Bruno Prates para o Caixa Negra e o seu entusiasmo pela partilha já era notório. Essa sua alegria em querer juntar pessoas e a forma como humildemente agradecia a oportunidade, lembram uma criança atenta que com entusiasmo participa de uma aula. Talvez por ser Professor, e por ter esta experiência da partilha, o artista se sentisse parte de algo maior.
“Tudo o que posso dizer é que, desde o momento em que houve qualquer coisa, e não havendo nada mais, essa qualquer coisa foi o universo, e nunca tendo existido antes, houve um antes em que não existia e um depois em que existiu, desde esse momento, digo, começou a haver tempo, e com o tempo a lembrança, e com a lembrança alguém que se lembrava, ou seja, eu ou essa qualquer coisa que a seguir eu percebia que era eu.” (Italo Calvino, 1993). É nesta partilha que o artista se revê e se engrandece, numa necessidade de fazer parte de algo, que o catapulta para o público e que com graça, vê e revê cada detalhe da sociedade de forma enviusada, talvez até um pouco cómica e grotesca, mas sempre comunitária e parte de uma existência social que é de todos.
A partilha no Caixa Negra de Bruno Prates já tem algum tempo, 2 anos para ser precisa, no entanto o conceito que está por detrás da obra continua a ser o mesmo, e essa consistência, ultrapassam a efemeridade do projeto, construindo-se num caminho que é de todos.

A certa altura falou-se da democratização da cultura que Caldas da Rainha tanto precisa, e desta necessidade de derrubar barreiras e de fazer entender que os espaços comuns são de todos, independentemente do estrato social. É jogando com o quotidiano que o Bruno sai da esfera do nada e aos poucos se afirma como parte comum de uma cidade na qual passou a existir pelo seu trabalho. Existe quase uma necessidade de dissecar cada individuo, de o observar e arrumar no local onde mais tarde vai buscar as memórias, para a sátira e a critica que alimentam o seu trabalho também de cartoonista.
Mas o que é este Caldense que é professor, artista e satírico quase comediante, senão um pouco de cada um de nós, que não tem a coragem de “dizer”. Talvez esta necessidade de sair do nada e de agregar ao universo, fazendo-o com a força de quem saiu da esfera da autocritica e expõe o seu trabalho ao escrutínio publico.
Certamente que ninguém pode ficar indiferente e percebe que estamos perante alguém invulgar e que tem a coragem de usar uma certa frontalidade para derrubar as barreiras do invisível que nos afastam da partilha. Essa partilha que faz o espaço publico ser de todos. Estamos perante alguém cujo trabalho é a reunião e a necessidade da nudez enquanto individuo, face à exposição e à comédia, porque tudo fica mais leve e sério quando se pode ser jocoso com a crua realidade.
“Entendamo-nos: não é que eu me lembre de como era no tempo do nada, porque então não havia tempo nem havia eu: mas agora percebi que, mesmo não sabendo que existia, um lugar onde poderia estar tinha-o eu, isto é o universo” E é com estas palavras de Italo Calvino que descrevem o cosmos em “Todas as cosmicómicas”, que eu entendo a obra do Bruno, que sai do privado e se torna público, na delicadeza da exposição e do escrutínio, tendo a força de se distanciar da crítica do seu trabalho e aventurar-se no universo do Cosmos Caldense. Na Academia de desenhos do Bruno, ensina crianças a se expressarem pelo mundo do desenho, argumentando como ele o fez enquanto jovem a explicar ao seu Pai porque queria um quarto amarelo, o porquê, e qual a sua razão, até que o argumento se transforma em algo poderoso e constrói um individuo blindado à exposição do seu trabalho e ao universo.
O Bruno pode ser encontrado a derrubar barreiras na Academia de Desenhos do Bruno na Rua Raul Proença, nº 58, 1º Andar.

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