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6.O tempo no neoprene

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6.O tempo  no neoprene


diretor da ESAD.CR do Politécnico de Leiria

“O mar está rápido!”, foi assim que chegámos ao areal, com uma manifestação de antecipação do entusiasmo de entrar num mar rápido. O mar pareceu assim talvez por que as ondas se sucediam umas às outras numa frequência muito curta. Dentro do mar contavam-se 31 surfistas, ligados ao mar por neoprene. O mar também estava rápido para essas pessoas que vestiam um fato que as mantinha na água, talvez por que a antecipação do tempo em que estão dentro do mar seja uma duração – uma imersão.
Na areia, ou junto à rebentação onde as ondas se desfaziam, depois de terem batido nas pernas ou nas costas daqueles que ali estavam sem fato, o tempo passava em várias durações, ou em momentos, distribuídos entre dar a volta na toalha, olhar para o mar e pensar quanto tempo levaria um fato de neoprene a ser feito? Estar na pele de um surfista parecia tão fácil como vestir-lhe o fato.
Estavam 31 surfistas dentro do mar rápido e alguns, junto à rebentação, preparavam-se para se juntar aos outros.
– Quanto tempo espera um surfista para entrar no mar?
Não se esperava para entrar, era antecipado, o tempo da espera resumia-se no presente – já era assim ao chegar à praia, o exercício era fazer coincidir os tempos.
A duração que antecedia a abordagem ao mar parecia uma espera. Antes de chegar à rebentação e esperar, os surfistas eram pessoas na praia, com pranchas e fatos de neoprene.

Ao contrário dos surfistas no mar, saímos da praia
com a chuva

O tempo que se passava na praia começava com uma antecipação – nascia na memória – e desenrolava-se em momentos sem ordem ou plano. Com tantas pessoas dentro de água, vestidas com uma membrana que as une ao mar, sentadas nas suas pranchas, sobrava outra questão: será que estar ali, naquele sítio durante aquele tempo, era um tempo presente estendido?
Nesse dia, o livro A ordem do tempo, de Carlo Rovelli, estava no saco da praia e com ele a releitura das palavras de Santo Agostinho, nas Confissões: “É na minha mente, então que meço o tempo. Não devo permitir que a minha mente insista que o tempo é algo objetivo. Quando meço o tempo, estou a medir algo presente na minha mente. Ou o tempo é isso, ou não sei o que é.” No tempo presente, os vestígios do passado revolviam na consciência, como um eco pessoal.
Ao contrário dos surfistas no mar, saímos da praia com a chuva. No entanto, o contínuo temporal, representado pelo barulho do mar, entre a constância do grave profundo e o desfazer das ondas em frequências curtas, era o mesmo para todos. ■

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