
Há na literatura portuguesa (ficção e ensaio) um pormenor, uma respiração e uma perspectiva que oscila entre Irene (Lisboa, Pimentel) e Maria (Ondina Braga, Judite de Carvalho) fazendo do espaço da cozinha, do trabalho obscuro e da paciência infinita, as linhas dum tempo e dum Mundo que às vezes até se detém nas receitas como a sopa de peixe: «cortava-se a cabeça ao pargo ou à garoupa. Levava-se ao lume com cebola, batatas às rodelas, um tomate se era tempo dele, um ramo de cheiros e um fiozinho de azeite.»
No eléctrico 16 entre Belém e Xabregas o mundo começa no seu espaço («Devia era haver um passe social!») e vai até África. Seja na memória dos estudantes («evocavam praias, casas, criados») seja na guerra colonial: «Um avião a cair no Negage. A barcaça que se virava na Guiné. Os feridos eram trazidos de madrugada do aeroporto para o Hospital Militar». Sem esquecer a ligação entre o anos 50 e a situação actual: «Os meus pais têm dívidas! Foram despedidos! Inscritos no Banco Alimentar!» Um livro, um eléctrico, um bairro, uma cidade, um país, um certo tempo português que vem de 1945 até hoje. Inesquecível, este livro.
(Editora: Divina Comédia, Texto contracapa: Miguel Real)
José do Carmo Francisco