Início Diversos Bloco de Esquerda – A cidade e a escrita invisível

Bloco de Esquerda – A cidade e a escrita invisível

0

Vêem-se por todo lado mas não consigo deixar de pensar que são verdadeiramente invisíveis. Ou talvez que o que há neles de verdadeiro é o que permanece invisível. Concentram atenções na cidade e grande parte do discurso de campanha eleitoral nas Caldas da Rainha é sobre eles. São palavras que não dizem. São tinta que gera rios de tinta. E, há que não esquecer, são sobretudo gente por detrás do não dito e da tinta.

A cidade “centro comercial a céu aberto” está cheia de tags que geram enorme mal-estar. São os tags esta escrita paradoxal. As assinaturas territoriais marcam ostensivamente uma presença que insiste em não se mostrar. São a escrita de um silêncio que esbarrou num muro sem ter conseguido transmitir o que parece querer insinuar. Uma assinatura-rabisco que se quer rude, que pouco diz de quem a faz, quase nada diz do que pensa ou sente.

Não posso nem quero substituir-me aos seus autores dizendo o que dizem. Só posso dizer o que me dizem.

Dizem-me da incomunicabilidade instalada na cidade.

Dizem-me do mal-estar que causam e do mal-estar que é a sua causa.

Dizem-me de vidas emparedadas entre a precariedade, o desemprego e uma falta total de perspetivas mobilizadoras de futuro.

Dizem-me de cidades que não são espaços vividos como públicos.

Dizem-me da desertificação do centro e do abandono da noite.

Dizem-me da arrogância de poderes longe das pessoas e de pessoas que pensam estar a escapar aos poderes.

Questionam-me. Que dirão estes escritores de paredes sobre si, sobre a vida, sobre a cidade, naqueles momentos em que escapam(os) ao chavão imediato e à boca? Que dirão da profundidade que são para além do desenho superficial na parede?

Questiono-me. E se as paredes começassem verdadeiramente a falar? E se a criatividade substituísse a preguiça? E se a arte invadisse mesmo a cidade?

-.-

É preciso atenção para olhar para as outras cidades invisíveis que não cabe(ria)m na narrativa eleitoral. Há cidades invisíveis tantas: da pobreza, da violência doméstica, da discriminação por orientação sexual.

É preciso saber escutar as escritas invisíveis com que enfrentam os silêncios que lhes são impostos. Dar visibilidade e fazer eco dos seus mal-estares. A política pode também ser a escrita que é escrita pelas vidas invisibilizadas nos nossos muros. Só que para isso é preciso não sonhar pintar todas estas vidas de branco. Não querer branquear as dificuldades (nossas e dos outros) em nome da eficácia ou do voto fácil. Pintar as solidariedades na cidade de todas as cores.

Loading

Visão Geral da Política de Privacidade

Este website utiliza cookies para que possamos proporcionar ao utilizador a melhor experiência possível. As informações dos cookies são armazenadas no seu browser e desempenham funções como reconhecê-lo quando regressa ao nosso website e ajudar a nossa equipa a compreender quais as secções do website que considera mais interessantes e úteis.