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ROQUE MAZARELO – Da Índia e Angola para “médico da Caixa” nas Caldas da Rainha

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ROQUE MAZARELO – Da Índia e Angola para “médico da Caixa” nas Caldas da Rainha
O Centro de Saúde era aqui por trás, no edifício do antigo Hotel Rosa | Carlos Cipriano

Foi aqui neste edifício, no antigo Hotel Rosa, que eu comecei a minha carreira de “médico da Caixa”. Tinha 50 anos. A carreira de médico já eu a iniciara há muito, aos 25 anos, na Índia e corri mundo e vivi muito até o acaso e a História me terem conduzido às Caldas da Rainha com a família, com apenas a roupa que trazíamos no corpo, à casa de um velho amigo. Hoje, reformado, depois de ter trabalhado no Centro de Saúde, no Montepio, no Hospital das Caldas, esta é, definitivamente, a minha terra.

87 ANOS
CASADO, 2 FILHOS, 5 NETOS

Nasci em 14 de Agosto de 1928 numa aldeia da freguesia de Velim (Margão) na Índia Portuguesa. Foi ali que fiz a escola primária e depois fui estudar para a Escola Médica de Goa. Em 1953, então com 25 anos, fui fazer o estágio para Bombaim e depois fui médico de clínica rural durante três anos. Corri praticamente todo o Estado da Índia Portuguesa como funcionário público da República Portuguesa. Na verdade sou um filho do Império Colonial Português, uma das últimas gerações de portugueses nascidos no continente asiático sob a bandeira verde e rubra.
Foi em Goa que me casei com a Viola Romaldina, em 1958. Mas entretanto eu arranjara trabalho em Angola e em 1958 estava a bordo de um navio para Lourenço Marques (hoje Maputo), onde apanhei outro barco para Luanda. Tinha 30 anos. A minha mulher não me acompanhou logo. Foi para a África inglesa, para o Quénia, onde tinha família, e durante uns anos, sempre que podia, eu apanhava o avião para Nairobi. Foi, aliás, no Quénia que nasceu o meu filho mais velho.
Vivi em Angola dez anos, a fazer prospecção da doença do sono. Corri o país de lés a lés. Andei no mato, nas aldeias a coordenar equipas de despistagem da doença que na altura era um grande problema de saúde pública e que as autoridades portuguesas se esforçavam por debelar. Víamos 1619 pessoas por dia.
Em 1968 dispus-me a gozar a graciosa (licença dada aos funcionários públicos para visitarem a então Metrópole durante quatro meses) e quando tinha tudo tratado, incluindo a viagem de avião, fui chamado para a tropa. Aos 40 anos! Pedi um adiamento e acabei mesmo por vir a Portugal.
O país que me deu a nacionalidade era para mim uma realidade estranha, pela qual eu tinha muita curiosidade. Mas gostei logo de Portugal e adaptei-me bem.

NA TROPA AOS 42 ANOS

Aproveitei para ficar cá quase dois anos a fim de fazer em Coimbra a equiparação do curso de Medicina (sem a qual não poderia exercer em Portugal), bem como, agora em Lisboa, as especialidades de Medicina Tropical e de Saúde Pública. Depois regressei a Angola e, aí sim, com 42 anos fui para a tropa.
Entre 1971 e até finais de 1973 fui oficial médico do Exército Português em Angola. Feita a recruta, passei rapidamente a aspirante, alferes e tenente. Mas não tive a vida facilitada. Fui mobilizado para Carmona (hoje Uíge) no norte de Angola, precisamente a pior zona da guerra. Como médico vi coisas horríveis, mas no que toca a atrocidades e a feridos em combate, o pior estava para vir porque, depois do 25 de Abril, com a guerra civil naquela região entre o MPLA e a FNLA, calhou-me também estar no centro do furacão e ao hospital de Carmona chegavam-me feridos às dezenas.
Por essa altura – estamos em 1975 – eu já era o director do hospital, o que me dava algum estatuto e respeitabilidade face a qualquer das forças em conflito. É que Carmona foi tomada pela FNLA e depois pelo MPLA. Combatia-se nas ruas e cheguei a ter que me fechar dentro da casa de banho com a minha mulher e os meus filhos porque as balas entravam-me dentro de casa. No hospital, para passar de um bloco para o outro, tínhamos que ir a correr para não sermos atingidos por nenhuma bala perdida.
Mantive alguma neutralidade e nunca tive problemas porque todos me respeitaram, se bem que eu tinha uma certa simpatia pelo MPLA.
Mas durante esses tempos duros, Uíge, como passou a chamar-se a cidade, esteve isolada e faltava tudo: comida, bebida, combustíveis. Sem os portugueses em Angola e sem um Estado angolano ainda formado devido à guerra, nós nem sequer recebíamos salário. Eu ia para o hospital porque era o meu dever.
Mesmo depois da situação estabilizada, já não havia condições para continuar a viver ali. Faltava tudo, a cidade estava semi-destruída, a maioria dos portugueses já tinha partido de Angola. Voltar para a Índia estava fora de questão. Em 1961 o exército da União Indiana tinha invadido o Estado da Índia Portuguesa e aquele território deixou de ser português. Eu tinha lá parte da minha família e cheguei a lá ir depois da invasão. Não havia instabilidade, não havia problemas, mas não era ali o meu futuro e por isso aceitei a ajuda do Agostinho Fernandes (já falecido), um colega meu de Goa, com quem partilhei quarto quando éramos estudantes e que vivia cá nas Caldas.

NAS CALDAS DA RAINHA

Eu das Caldas da Rainha já tinha ouvido falar vagamente em algumas revistas, mas fiquei a gostar da cidade mal cheguei. Eu, a minha mulher, os meus filhos, não tínhamos cá ninguém para além do Agostinho e ficámos dois meses na casa dele. À chegada o IARN (Instituto de Apoio ao Retorno de Nacionais) deu-me 1200 escudos (6 euros) e foi tudo.
Felizmente, eu não tive problemas de emprego. Cheguei cá em 11 de Novembro de 1976 (precisamente um ano depois da independência de Angola) e comecei no final do mês a trabalhar como “médico da Caixa” (como então se dizia). Tinha 50 anos e depois de ter sido médico rural na Índia, médico no interior de Angola, e director de um hospital angolano em tempo de guerra, comecei aqui uma nova fase como clínico geral.
As condições eram outras. Muito melhores do que aquilo a que eu estava habituado. Havia muitos mais recursos. Mas a verdade é que em África, mesmo com os meios de que dispúnhamos, também se fazia boa medicina.
Em 27 de Janeiro de 1992 foi inaugurado o novo Centro de Saúde das Caldas da Rainha (que agora é já um edifício velho a precisar de obras). Médicos, enfermeiras e pessoal administrativo mudaram-se todos para as novas instalações, para grande alívio de todos – sobretudo dos próprios utentes – porque antes estávamos aqui um bocadinho apertados. Mas só ali trabalhei mais seis anos porque reformei-me em 1998.
Como a maioria dos médicos das Caldas, também trabalhei no então Hospital Distrital (hoje CHO) e no Montepio. Era uma forma de ganhar mais algum dinheiro. Lembro-me que em 1976 eu ganhava 4 contos por mês (20 euros). No hospital fazia urgências e no Montepio fui também médico de clínica geral. Assegurava as urgências e era conhecido da administração por ser o médico que estava sempre disponível para assegurar inesperadamente um turno se algum colega tivesse que faltar.
Como há 40 anos não havia cá médicos legistas, por vezes calhava-me fazer as autópsias no concelho. Hoje isto parece incrível, mas era num anexo do cemitério que eu autopsiava os cadáveres, sem as condições que hoje em dia são exigidas a um trabalho deste tipo. Aliás, era o próprio coveiro que cortava os corpos, sob a orientação dos médicos.
Aliás, nestas últimas décadas a medicina evoluiu tanto que eu costumo dizer que sou um “analfabeto” nesta ciência. O que mais se destacou foram os meios de diagnóstico. No meu tempo o exercício da actividade era mais personalizado: víamos os doentes e tínhamos que diagnosticar pelo seu historial clínico. Hoje manda-se fazer exames para tudo (o que até acarreta mais despesa para o Estado) e o médico quase não olha para o doente pois centra-se nos resultados dos exames e mal tira a cabeça do écran do computador. Hoje até parece que o doente é um número, um objecto, mas em contrapartida é certo que a eficácia dos meios técnicos colmata essa falta de humanidade, essa ausência de contacto físico entre  o médico e o doente.
Reformei-me do Centro de Saúde em 1998. Ainda fiquei mais uns tempos no Montepio, mas depois decidi retirar-me de vez da actividade. Hoje leio muito, oiço música (sobretudo clássica), vejo TV e leio jornais. Leio a Gazeta das Caldas (sou assinante) e compro o Público desde o primeiro número sem nunca ter falhado nenhum.
Desde 1958 só voltei a Goa três vezes. Ainda lá tenho irmãs, mas falamos pelo Skype. A minha terra é aqui. Adaptei-me bem às Caldas desde o início, vivo aqui há 40 anos, é aqui que tenho os meus filhos e os meus netos e não concebo acabar os meus dias noutro lado do mundo que não seja nas Caldas da Rainha.

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