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Estrada de Macadame

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CCXI – «As mulheres do monte ou memória para Olímpia do Carmo Almeida»

Eu andava à procura de motivo para escrever uma memória sobre a minha mãe – Olímpia do Carmo Almeida (1929-1995). O poeta Fernando Grade veio a minha casa e ofereceu-me alguns livros.

O ensaio «Xácara da Galinheira» de Manuel Ramiro Salgueiro (Editora MIC) trata de uma canção que fazia parte do velho livro de leituras da Escola da minha mãe: «As mulheres do monte / quando vão à vila / levam cestas de ovos / galinhas em cima / Uma vez a uma / caiu-lhe a cestinha / quebraram-se os ovos / fugiu a galinha / Chegou ao outeiro / pira! pira! pira! / quanto mais chamava / mais ela fugia».
São coisas desencadeadas, como dizia Carlos de Oliveira. Em 18-1-1996 na resposta ao Questionário de Proust eu falei das mulheres como a minha mãe. Foi no «Jornal da Costa do Sol»: P – «Quais as heroínas mais admiradas na vida real? R – As mulheres anónimas (como a minha mãe) que sacodem o sono, acendem o lume e fazem andar o Mundo.» O herói não é o que tem o seu nome nos jornais todas as semanas. Se fosse assim eu era um herói pois desde Agosto de 1978 que o meu nome aparece em letra de forma em jornais e em revistas. A minha mãe foi heroína mas no silêncio. Sofria por dentro e esse sofrimento é que a fez morrer cedo de mais. Agora, com a perspectiva aguçada pela distância, é que eu imagino o que ela deve ter sofrido quando eu não entrei para a escola primária em Outubro de 1957 uma vez que fazia sete anos em Fevereiro de 1958. Por uma estúpida birra da Delegação Escolar do Montijo, só entrei para a escola em Outubro de 1958 e parecia pai dos outros meninos. Sofrendo sempre, a minha mãe nunca desistiu e pedia às pessoas amigas para escreverem ao Ministro da Educação Nacional. Em Abril de 1961 fiz nas Caldas da Rainha o exame da terceira classe. Em Julho fiz nas Caldas o exame da quarta e, em Agosto, em Leiria, fiz os exames de admissão ao Liceu e à Escola Técnica. Imagino o que terá sofrido quando a minha irmã mais nova (n. 1956) sofreu de um infecção grave nos intestinos e um vizinho do Montijo apareceu com uma nota de 500 escudos para o que fosse preciso. O meu pai saía de manhã e chegava à noite. Por essa razão os problemas da casa permaneciam mais tempo com ela. Imagino o que ela sofreu com as nossas constantes mudanças: de Santa Catarina para o Montijo no Verão de 1957, do Montijo para Santa Catarina em Outubro de 1960, de Santa Catarina para Vila Franca de Xira em Outubro de 1961 e de Vila Franca para Lisboa em 1967. Mas em Lisboa ainda mudou da Travessa do Caldeira para Miraflores em 1981 e de Miraflores para Santa Catarina em 1989. Imagino o que terá sofrido com o facto de o dinheiro não abundar nunca mas era preciso criar três crianças e todas estudaram até ao ensino superior. Digo que imagino porque também eu criei três filhos todos licenciados e um com tese de mestrado. Quando estávamos em Vila Franca de Xira o meu pai trabalhava ao fim-de-semana na Viação de Alenquer. Fazia excursões e desdobramentos das carreiras nos dias de festa. O silêncio da heroína ainda hoje se percebe. Às vezes, quando vou ao cemitério, julgo ouvir um rumor. Nunca sei se a origem é a memória convocada ou as crianças da escola junto à estrada e ao rio que noutro tempo tocava uma azenha.
Esta canção, ouvi-a eu muitas vezes cantada pela minha filha mais velha (n.1978) Canta-se sempre contra a escuridão do Mundo, a morte e o esquecimento. Sei que, algures em Londres, entre Greenwich e Lewisham, numa casa cheia de luz, a minha filha Ana repete para o meu neto Thomas (n.2006) as mesmas cantigas que ouviu à minha mãe. Uma heroína discreta e silenciosa que não precisou de aparecer nos jornais todas as semanas para ser importante na nossa vida.

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