Imagine 100 crianças, de perto de 50 países diferentes, a tocar mais de uma dezena de instrumentos de cordas, sopro e percussão. É assim a OSIA – Orquestra Sinfonia de Inclusão e Aprendizagem, que além de lhes ensinar música, tem um propósito muito maior: a inclusão social. “Este projeto não é um privilégio para os imigrantes, é um direito, porque a sua principal missão é integrá-los”, explica o seu coordenador
Anualmente, Pedro Filipe, da Academia de Música de Óbidos, costuma visitar as escolas do primeiro ciclo dos concelhos da região, nomeadamente dos agrupamentos com quem estão ligados através do ensino articulado, para mostrar aos mais novos os instrumentos e sensibilizar para a música. Em 2023, no regresso aos estabelecimentos de ensino após a pandemia, encontrou nas salas de aula muitos mais alunos migrantes, facto que também se começou a refletir nas aulas de música. Mas muitos outros ficavam de fora. Pensou então como fazer algo pela inclusão destas crianças e, depois de duas ou três conversas informais com amigos, surge a oportunidade de avançar com uma candidatura para um projeto no âmbito da inovação social, que celebra a inclusão, diversidade e coesão comunitária.
Lançado o desafio às Câmaras da região, e também de Pombal (onde reside um professor de música desta Academia, que resolveu arregaçar as mangas), tiveram logo resposta positiva dessa autarquia e também da das Caldas, juntamente com as duas juntas de freguesia urbanas. A candidatura, entregue a 7 de janeiro de 2025, envolvia 14 entidades parceiras, entre elas diversas empresas da região. O mais curioso é que havia mais municípios interessados, mas a candidatura não podia exceder os 100 mil euros e o valor já estava ultrapassado. “Foi espetacular, houve muito interesse de toda a região, pelo que tivemos de optar pela dimensão dos concelhos e o impacto que a comunidade migrante tem, podendo com este projeto contribuir para a sua estratégia de coesão social”, salienta Pedro Filipe, coordenador da OSIA – Orquestra – Sinfonia de Inclusão e Aprendizagem, um projeto de inclusão social através da música.
100 crianças de 50 países
Atualmente participam 100 crianças e jovens migrantes, com idades compreendidas entre os 6 e os 15 anos que foram identificadas pelo Agrupamento de Escolas Raul Proença (parceiro do projeto), como estando em risco de exclusão social e carência económica. Com uma validade de 36 meses, começou em setembro de 2025, com as inscrições, primeiro “devagarinho, pois havia relutância” com a bondade do projeto. Ultrapassado esse momento, havia que encontrar no mercado instrumentos para todos os meninos, uma vez que todos participam numa oficina de instrumento musical, e outra de coro, multilingue, que decorrem nas escolas do primeiro ciclo associadas à EBI de Santo Onofre.
Cada aluno acaba por ter uma prática musical inclusiva de 4 horas semanais, que funciona sempre depois das aulas. Divididos em grupos de cinco, aprendem a tocar instrumentos de cordas, sopro, percussão e também coro, envolvendo 14 professores da Academia de Música de Óbidos. Em Pombal há sete professores a desenvolver o projeto com 50 migrantes.
Nas Caldas há meninos de perto de 50 países a integrar esta orquestra multicultural, sendo que a maioria são brasileiros, depois angolanos e ucranianos, mas também outros provenientes de países asiáticos e do Médio Oriente.
A primeira apresentação pública teve lugar a 20 de dezembro, com a apresentação das oficinas e o espetáculo “À Procura do Pinheiro – um Concerto para Todos”, num CCC completamente esgotado. A acompanhar os 100 meninos do OSIA em palco estiveram também alunos do ensino articulado de música do Agrupamento Raul Proença e uma turma do Complexo do Alvito (Óbidos).
Depois de um início em português, neste segundo trimestre a aposta da oficina de coro vai passar pela interpretação de músicas em várias línguas.
O impacto que está a ter na sua integração é já percetível pelo “entusiasmo e compromisso que têm em ir para as oficinas”, refere Pedro Filipe, acrescentando que os professores destacam que vão mais concentrados para as aulas.
Ilimitado nas oportunidades
Como principais investidores sociais estão os municípios das Caldas da Rainha e Pombal, que participam com 60 mil e 30 mil euros, respetivamente, ao longo dos três anos. O projeto tem um valor global de 467 mil euros, envolvendo todo o trabalho de formação ao nível das oficinas e residências artísticas (com a Banda Filarmónica de Alvorninha, nas Caldas, e a Filarmónica da Guia, em Pombal), assim como espetáculos.
A Escola Superior de Educação de Lisboa, também parceira do projeto, irá validar o impacto no terreno de todas as competências a que se propuseram, ao nível da inovação social. “O nosso objetivo é muito claro, é que estas famílias que vêm para cá trabalhar não podem ser excluídas socialmente, marginalizadas. Elas têm que estar incluídas na sociedade e serem ativos estratégicos, mas para isso acontecer, temos que lhes “dar a mão”, dar-lhes uma oportunidade, durante algum tempo”, remata Pedro Filipe. “Este projeto que foi aprovado tem um impacto limitado no tempo [só é válido enquanto a criança estiver em situação de exclusão, sendo avaliado a cada seis meses] mas ilimitado nas oportunidades”, conclui.



