“Intempérie na Foz; Desolação; Milhares de contos de prejuízo; Lagoa Fechada; Inundações; Draga no fundo; Estrada em perigo”, lê-se na primeira página do dia 16 de fevereiro de 1974. “Os temporais – chuva e muito vento que assolaram a região nos últimos dias aliaram-se ao Atlântico para desvastar e ruinar muito do que a mesma Natureza antes prodigalizara e do que o engenho humano produzira. Foz é exemplo. Encerrada a comunicação com o oceano, a lagoa transbordou. E tudo, à volta, ficou inundado. As águas atingiram a estrada que a margina – construida com precipitação e a nível demasiado inferior – destruindo-a, tornando perigoso o trânsito e criando um problema de recuperação a ponto de ser questão de saber se valerá a pena”, lê-se na Gazeta.
“A draga, há ano e meio ali a fingir que draga (porque não funcionava em pleno rendimento e gozava de fim de semana), afundou-se e num dos locais de maior profundidade. Como será possível recuperá-la e quanto é que isso não custará ao Estado?”, questiona o jornal.
Com humor, conta ainda que “interromperam-se os esforços desenvolvidos para reabrir a «aberta». Com ela fechada. É que era sábado, seguia-se domingo e este repouso-e-meio semanal está a tomar foros de instituição nacional ainda mais intocável do que o era pelos ingleses. De modo que, não fora o fim-de-semana: a lagoa estaria a comunicar com o mar, a estrada sofreria menos danos, as inundações teriam menores consequências, à economia nacional não se causariam danos tão vultuosos”.
A criação de uma delegação do Centro Universitário de Lisboa da Mocidade Portuguesa na Foz do Arelho, que não se verificou, é uma das notícias interessantes da edição do dia 13. Tal possibilitaria a prática de remo, natação e vela na Lagoa de Óbidos. “Até que enfim! O esplêndido recinto desportivo chamado lagoa de Óbidos vai ser aproveitado sistematicamente para fins de desporto”, lê-se. “Com instalações capazes, o departamento, de base estadual, ficará à disposição de quantos queiram praticar a natação, o remo e a vela”, complementa a Gazeta das Caldas.

A crise do combustível que se vivia continuava a ser um tema marcante nas páginas da Gazeta das Caldas, que nesta edição, de dia 13, até um aviso, a vermelho trazia, na primeira página: “O combustível faz falta a todos, e a si também, POUPE COMBUSTÍVEL”, lia-se.
Ainda nessa página encontramos nas “Notas do mês” o seguinte: “todos sabem que foram impostas restrições ao consumo de carburantes. Também sabem alguns que há excepções, por via da lei, para abastecimento aos dias em que é proibido na generalidade. Pois, é nisto que vamos malhar hoje.”, lê-se, numa nota que aponta aos jornalistas da imprensa diária. De resto, a “luta” entre imprensa diária e a restante, regional e local, era latente. E é explicada nessa edição, num artigo que conta que “continua a não haver gasolina para limpeza de chapas tipográficas”, que diz que “o irrealismo com que se tomam resoluções no plano ministerial atinge o paroxismo da insânia” porque “o Governo autoriza que os jornalistas profissionais disponham de gasolina à descrição para consumir nas viaturas próprias, mas não consente que as tipografias (de jornais ou não) utilizem esse líquido para fins gráficos. O jornalista pode passear com os seus litros de combustível. Ao tipógrafo não se fornece nem um litro para fins profissionais”.

“Outro passo: O Governo vai isentar de contribuição industrial os proprietários de jornais. Aqui o benefício é menos aparente. Embora os pequenos jornais sejam fonte de prejuizos, o Fisco pouco se importa com isso e, com artes de malabarista, transforma em lucros o que não é. Daí que os jornais passem, cada um, a poupar aquelas centenas de escudos que, em cada ano, vem pagando de imposto”, explica. “No plano dos princípios foi-se realmente longe pois, em teoria, começa a desaparecer a anterior discriminação”, conclui.


Explica-se que “a pouco mais de 80 quilómetros de Lisboa, nas grutas do Bombarral, foram descobertas não só ossadas de ursos, mas, também de rinocerontes, veados, renas, hienas e grandes cavalos, detectando-se, igualmente, um nível da idade correspondente ao paleolítico médio cuja indústria pertence ao período moustierense”. A Gazeta dizia ainda que “o acontecimento é considerado único no País, pois que nunca até à data se localizou o moustierense em Portugal, sem ser ao ar livre; desta vez, temos a prova de que pelo menos o homem do Neanderthal – 35.000 a 150.000 anos a habitou. Descoberta sensacional foi, sem dúvida, o caso do aparecimento de um dente de criança, datado, ao rádio carbono 14, com a bonita soma de 40.000 anos, o que comprova, efectivamente, que o primitivo urso das cavernas viveu paredes meias com o homem”.



O artigo lembra que “anteriormente a emigração atravessava o Atlântico, devido à lonjura era para toda a vida. A emigração europeia é de deslocações mais curtas, saudades mais pequenas. Mas nem por isso mais fácil. O ano passado foram encontrados na montanhosa fronteira franco-espanhola 12 cadáveres de portugueses. Há conhecimento de 150 mortos durante o mesmo ano naquela região e, durante os últimos dez anos, segundo as autoridades da cidade espanhola de Handaia, morreram 80 emigrantes ao tentarem passar clandestinamente a fronteira”.
A peça, que continuava na edição seguinte, trazia um subtítulo: “em cada mês seis aldeias despovoadas”. E prosseguia: “até que ponto poderá sobreviver uma nação que perde anualmente 100000 dos seus filhos, precisamente naquela idade em que mais necessários são para o trabalho? As estruturas do país, principalmente rurais, começam a ressentir-se. Mensalmente partem 2284 famílias, representando estatísticamente a morte de seis aldeias. A pirâmide de idades está a distorcer-se (menos de 50 000 nascimentos o ano passado), motivando gradual envelhecimento da população. Os campos estão abandonados. A emigração (e a guerra no Ultramar) leva os homens”.
O artigo termina com a seguinte reflexão: “enquanto o país tiver o mais baixo nível salarial europeu (apenas 3% dos portugueses ganham mais de 10.000$00 mensais, 63% vivem com cerca de 3.500$00 e 33,4% não vão além de 1.500$00) a atracção pelo estrangeiro continuará irresistível”.

Para a semana trazemos mais artigos escritos a chumbo, até lá!





