Início Opinião Rubricas Semanais Poder do século XXI

Poder do século XXI

0
Poder do século XXI
Miguel Silvestre

Miguel Silvestre

És mais do que o que defendes, da família a que pertences, da carreira que construíste e das relações de amizade que cultivas desde a infância. Noutros tempos o que escrevias era privado, a partilha era uma opção, não a regra. Partilhar era algo que exigia um grau de confiança invulgar para o cidadão comum. No século XXI é possível furar barreiras e amplificar ideias e princípios graças à grande transformação da internet. Foram jovens adultos a conseguir esse impacto brutal e transformar o mundo numa aparente planície de oportunidades. Multiplicaram-se startups e projetos de tecnologia disruptiva. Recordo-me de, há uns anos, ouvir um dos criadores do Google Art explicar que a sua primeira motivação foi criar uma ferramenta para qualquer criança do mundo contactar com as grandes obras-primas da humanidade. E de como isso lhe foi permitido pela cultura corporativa da empresa que permitia aos colaboradores despender um pouco do seu tempo de trabalho em projetos relevantes.
Em 2022 multiplicam-se os sinais de que as grandes empresas também podem atuar como fatores de bloqueio à disrupção. Um interessante artigo de James Bessen, na MIT Technology Review (17/02/2022), sublinha isso. Não são apenas as aquisições de empresas e tecnologias emergentes que vão atrofiando a inovação, mas a capacidade das grandes empresas em implementar sistemas e tecnologias de larga escala, que tornam a missão das startups mais complexa. Os governos têm dificuldade em lidar com as megacorporações na aplicação dos fundamentos de qualquer estado liberal: regras de concorrência fortes e leis antitrust e cartelização. É perigoso deixar isso à responsabilidade dos “disruptores”. Alguns percebem que abrindo algumas das suas inovações tecnológicas a outros players isso poderá ser uma forma de criar novos mercados ou de acelerá-los. Da Amazon à Tesla são vários os exemplos. Mas onde não estamos a trabalhar com a premência que deveríamos é no fortalecimento da nossa individualidade enquanto cidadãos ou consumidores. Relativizamos muito do poder que deveríamos ter em detrimento da comodidade dos serviços que nos propõe essas empresas. E quando assim é, normalizamos o mercado e reduzimos a sua capacidade de absorção de produtos inovadores.
O poder do século XXI é o incremento da nossa dimensão cívica, não só física ou de consciência ou espiritual, mas também da digital. Hoje somos mais do que a primeira linha deste artigo, somos um roteiro digital da nossa maneira de pensar, que vai desde as nossas pesquisas até ao que partilhamos. Em muitos casos, a inteligência artificial adivinha e/ou condiciona o que pensamos. A anonimização dos dados, a sua análise quantitativa, não chega para que esse poder do século XXI seja de facto nosso.

Loading

Visão Geral da Política de Privacidade

Este website utiliza cookies para que possamos proporcionar ao utilizador a melhor experiência possível. As informações dos cookies são armazenadas no seu browser e desempenham funções como reconhecê-lo quando regressa ao nosso website e ajudar a nossa equipa a compreender quais as secções do website que considera mais interessantes e úteis.