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Acordes de um festival em tempos de pandemia

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Acordes de um festival  em tempos de pandemia

O Cistermúsica é um dos poucos festivais de música do país que, apesar da pandemia, decidiu manter-se fiel ao público. A 28ª edição do festival de música de Alcobaça, dedicada a Beethoven, arrancou, na semana passada, com fortes medidas de segurança e lotações limitadas. Viagem aos bastidores de um festival como nunca se viu

O backstage de um concerto de abertura de um festival costuma ser um verdadeiro corrupio. Mas não foi esse o cenário que se vislumbrou, na passada quarta-feira, no Claustro do Silêncio do Mosteiro de Alcobaça, onde decorreu o espetáculo do Quarteto Tejo e António Saiote que inaugurou a 28ª edição do evento. Bem pelo contrário. O festival, dedicado a Beethoven, foi autorizado sob fortes medidas de segurança e lotações restritas, pelo que a organização, a cargo da Banda de Alcobaça, não quis deixar nada ao acaso.
Mas há sempre surpresas. E, no caso concreto, boas surpresas. Como foi a presença, a meio da tarde, do diretor-geral do festival, Rui Morais, no programa “Portugal em Direto” na RTP1. Entre a equipa, quem assistiu, elogiou a prestação “do chefe” na televisão. Quem não viu, porque estava atarefado, procurou saber “como tinha corrido” a entrevista, sabendo que o simples facto de o Cistermúsica ter direito a minutos de exposição no grande ecrã já é motivo de satisfação para um festival que, simplesmente, se recusou a calar os instrumentos.
Mas, para que o evento fosse possível, os trabalhos de preparação começaram há meses, em reuniões com a Direção-Geral do Património Cultural e outras entidades, com o intuito de cumprir todas as determinações exigidas para a realização de espetáculos. O papel de Ana Pagará, directora do Mosteiro, foi determinante para que as negociações chegassem a bom porto, até porque há obrigações para que se possam realizar eventos deste genero num monumento inscrito na lista do património mundial da Unesco.
Foi o caso do concerto de abertura, cujo cenário acabou de ser montado ao final da tarde, para que os músicos pudessem ensaiar. Munidos da respectiva máscara, os assistentes alinharam as luzes e afinaram o som, fizeram as marcações no palco e dispuseram oito filas de dez cadeiras meticulosamente separadas com um metro de distância.
Os quatro jovens músicos que compõem o Quarteto Tejo foram os primeiros a subir ao palco, mas quando António Saiote se lhes juntou o ambiente transformou-se e o humor desconcertante do clarinetista não deixou ninguém indiferente. Depois de pedir a quem de direito que ligasse “o ar condicionado” de um espaço ao ar livre, o professor ainda teve tempo para deixar um alerta. Dali a pouco mais de hora e meia, daria um concerto com um quarteto de cordas, mas advertiu um assistente relativamente aos jovens com quem iria partilhar o palco: “Eles são mais perigosos, porque tocam de boca aberta…”

VOLUNTÁRIOS COM PAPEL ESSENCIAL

A lotação do espetáculo de abertura, resumida a 80 pessoas, entre os quais alguns (poucos) convidados, esgotou rapidamente. Mas, como sempre acontece nestas ocasiões, foram vários aqueles que se deslocaram ao Mosteiro, no dia do concerto, com o propósito de adquirir o ingresso. Nada feito. Os bilhetes estão à venda on-line e os lugares são reservados. No sentido literal do termo.
As portas abrem uma hora antes do início do espetáculo e cada bilhete é nominal. Quando os espectadores chegam à entrada do local do concerto há dois corredores: um para o público em geral e outro para os convidados. Seja como for, ninguém entra sem ser devidamente acompanhado por um voluntário e só pode fazê-lo se estiver munido de máscara e depois de desinfectar as mãos num dos dispensadores colocados já no interior do Mosteiro.
O percurso até à cadeira é feito com o devido distanciamento social para com os voluntários e o uso da máscara é obrigatório até que o espectador volte a sair do monumento. Para que não haja esquecimentos, os assistentes relembram todas as regras a quem pretende assistir ao concerto.

Que o espetáculo comece

Com tudo a postos, e mesmo em cima da hora marcada, regressam as movimentações. Rui Morais surge ao lado de Alexandre Delgado, com o qual partilhou a direção artística do festival durante 18 anos, certificando-se que o espetáculo pode começar.
Sobe, então, ao palco o homem que, nestas duas décadas, tem ensinado os alcobacenses e os restantes espectadores a saber mais sobre música clássica. O compositor, que este ano foi substituído na direcção por André Cunha Leal, oferece um discurso pungente ao público e, sobretudo, agradece a quem ajudou a manter o festival vivo. “Seria imperdoável que o Cistermúsica deixasse passar o ano do 250º aniversário do nascimento de Beethoven”, considerou Alexandre Delgado. E mais não seria necessário dizer.
O concerto de abertura, comemorativo dos 50 anos de carreira de António Saiote, foi diferente de tudo o que já se tinha ouvido (e sentido) no Cistermúsica. E quando terminou, sob fortes aplausos do público, o silêncio voltou a reinar no Claustro de D. Dinis. Uma voz-off deixa a advertência final: o público apenas poderá sair dos respectivos lugares quando receber “a indicação” dos assistentes. Sinal dos tempos.

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